18 Novembro 2009


sei dos dias e das vias
que nos levaram distantes,
cada um com seu sinal.
cada um com sua sina,
seu destino, sua rima.

não existe desatino
quando se sabe pisar
as pedras do seu caminho.
não existe mágoa, ou dor,
quando se sente no peito
o impossível do gesto
que se deseja fazer.

você é a gaivota linda
que eu, golfinho no mar,
vejo a flutuar nos ares,
sabendo que,
nunca mesmo,
suas asas virão às águas
permitir-me o abraçar...


12 Outubro 2009

para Trotamundus


sinto-me só nos seus dias
como a noite abraça a lua
e fica assim, meio parda...

um pouco de mim avança,
enquanto o restante tarda.

se ainda a cheiro criança,
se ainda a abraço filha,
é porque sou como ilha
envolta pelo seu mar.

você é maior que eu
e sempre o foi assim:
sou apenas um pedaço
do pedacinho de mim...

18 Setembro 2009

onde anda Maria?

onde anda Maria?
a estudar no Porto?
a transitar pelas ruas
como tresvairada louca
a escrever seus poemas?
a ouvir estrelas tantas
e o silêncio das nuvens?
Onde anda Maria?
a sentir o vinho aqui
e o tabaco acolá?
a ler as notícias falhas
dos jornais e das revistas?
onde anda Maria
que já devia de estar
completamente vestida
para os sonhos e a vida!?

11 Setembro 2009

mensagem


desde que a noite se foi
penso em você.
desde que a manhã se acabou
penso em você.
e agora, enquanto a tarde agoniza
penso no leve rumor dos seus passos
e no brilho molhado de seus olhos
quando sorriam para mim...
os meus dias tornaram-se maiores
e o meu tempo mais lento
enquanto espero por sua volta.
os meus dias tornaram-se mais tristes.
não me canso de olhar pela vidraça
no rumo único do caminho
que você tomou.
não me canso de esperar a volta.
não me canso de guardar-me pra você...

21 Maio 2009

menina dos olhos verdes

menina dos olhos verdes,
do verde que vem do mar.
dos sonhos todos correntes
como as correntes do ar
que trazem junto as gaivotas.
que pintam em pontos brancos
os azuis do teu lugar,
seja nos céus,
ou nas pedras,
nos braços rotos dos barcos,
ou nos sonhos de voar...

menina dos olhos verdes,
o verde que eu quero amar...

24 Abril 2009

HORIZONTE



linhas de horizonte sempre me atraíram.
funcionaram como sonhos,
limites, metas, ou simplesmente paisagem.
a linha de horizonte que mais me marca
e me recua no tempo,
é o contorno da serra,
à direita da visão a partir
da Praça Monsenhor Arruda Câmara,
defronte a Catedral do Senhor Bom Jesus,
nos Afogados da Ingazeira,
Sertão de Pernambuco.

aquele imenso sol se pondo,
o céu rubro,
Minas distante,
e eu com o mundo inteiro pela frente...

04 Abril 2009

FESTA NACIONAL DO MILHO

Então é isso. Eu estou lá onde os dias se confundem com as noites e se misturam com semanas, meses, anos... a gente segue pensando que o tempo é um inferno impressionante que desabou do céu no meio da tempestade. Ontem mesmo eu fiquei pensando no que foi feito de Pretinha. Moça bonita encontrada no meio do povo que cruza entre as barracas da festa do milho. Os autofalantes descarregavam uma sertaneja atrás da outra enquanto os meus neurônios processavam Beatles. Mas eu precisava ouvir Trio Parada Dura para me aproximar da Pretinha e então eu ouvi. Ouvi o Castelo de Amor e mais um montão de “modas”. E gostei. Vi aquele rosto em frente ao meu e não me contive: - “Eu conheço você de algum lugar!”... e ela a responder: - “eu também já te vi”. Um riso pra lá, outro prá cá... um toque de mãos e os mundos se misturando e fazendo da gente uma perdição demais. Depois veio o Zezé de Camargo e Luciano, o Leandro e Leonardo, o Chitão e o Xororó... o clima era para isso. Joguei para o fundo da minha caixa de preferências os Beatles, o Buarque, o Valença... O que importava, na verdade, era a Pretinha. Aquele par de olhos escuros que tomou conta do meu campo de visão, dos meus sentimentos e do meu campo de vivência, afastando para bem longe os problemas que, então, se apresentavam. E na perdição por demais sincera, veio o copo de cerveja Skol, o abraço demorado, o beijo molhado e a paixão desenfreada nos dias da Festa Nacional do Milho de um mil novecentos e oitenta e seis. “Eu conheço você de não sei onde...” ela dizia. E eu ficava imaginando, no meu interior, que também já tinha provado aquele mel e ouvido aquela voz “de não sei onde”... pensando que, talvez, meu avô espírita tivesse razão. “Quem sabe já nos encontramos antes num espaço desse, por aí?” Ouvi poucas palavras de Pretinha... palavras não eram necessárias. Nossos olhos se entendiam, nossos abraços falavam mais alto e o beijo era uma verdadeira simbiose de almas. Foram apenas os três últimos dias da Festa do Milho de oitenta e seis. Nesses dias ficamos ali, olhando um nos olhos do outro, as almas conversando... A festa acabou e voltei ao trabalho. Pretinha foi-se embora para a fazenda onde morava. Encontramo-nos mais duas vezes depois. Cheguei, até, a visitar Pretinha na fazenda, casa de suas duas tias idosas... Lembro-me de um sábado maravilhoso que passamos juntos ali, “conversando com os olhos” e eu assistindo àquele riso branco, puro, limpo e maravilhoso de Pretinha...
Depois o mundo real nos engoliu e a trilha sonora virou “Barco de papel” do “Parada Dura”.
Eu fui embora pra Brasília...
Pretinha casou-se e foi-se embora para o Paraná... (assim me falaram...)

Um dia – em algum tempo e espaço – nós vamos nos encontrar de novo. E não sei qual dos dois será o primeiro a dizer: eu conheço você de algum lugar!