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Hermínio Noronha * 10.4.1922 o pai está comigo. está aqui do meu lado em cada minuto que passa. assiste ao meu enlevo no trabalho quando me desligo do mundo e foco. está sorrindo para mim quando bebo um gole de cachaça como fazíamos então... quase toca minha mão quando acaricio um dos filhos, qualquer um deles... o pai vigia comigo em meus silêncios e ri quando dou minhas gargalhadas. nos momentos de triste ou de sozinho é como se sentisse o seu braço em meus ombros, o seu abraço a me acolher, amparar. o pai partiu há alguns anos, mas sempre está presente e não raro ouço sua voz a iluminar meu pensamento... o pai está comigo porque faz parte de mim.
a mulher que eu amo é a que me povoa a alma
e me aparece em sonho.
é a que não diz não, nem me diz sim,
cujos olhos espelham um eterno talvez.
a mulher que eu amo sabe seu rumo,
não espera a hora,
não aguarda o sol nascer.
a mulher que eu amo anda na chuva
e não se importa se o cabelo se desfaz.
sorri pra mim simplesmente por sorrir.
a mulher que eu amo é capaz de ouvir o pouco que eu falo
e sabe entender o muito que eu não digo.
a mulher que eu amo
não tem vergonha nenhuma de andar pelas ruas de mãos dadas...
Minha filha como eu quero
tem o sorriso aberto,
os olhos brilham de vida
e tem um anjo por perto.
Minha filha como eu quero,
carrega a paz nas entranhas,
carrega os sonhos na alma
e vence todas montanhas.
Minha filha como eu quero
é um retrato de mim
melhorado pela vida.
faz falta quando o dia surge nublado,
aquela luz intensa que aquece,
ilumina e faz vibrar a vida,
o inerte,
o quieto do silêncio.
faz falta o sol.
faz falta quando na caixa postal do prédio
não há nenhum envelope esperando mãos que o apanhem.
faz falta a carta.
faz falta o bom dia do companheiro de serviço que faltou.
faz falta o abraço não dado,
ou não recebido.
faz falta a palavra que deveria ter sido ouvida e não o foi.
faz falta a juventude.
foi casual.
a moça vinha pela calçada
e eu ia pela calçada.
a aproximadamente dez metros eu vi os olhos da moça.
no mesmo instante a moça viu os meus olhos.
enquanto os passos prosseguiam,
os dela e os meus,
nossas mentes viajavam mundos
e os olhos caminhavam prisioneiros.
eu via os olhos da moça e a moça via meus olhos.
chegamos próximos um do outro.
vontade de dizer: olá!
vontade de tocar a mão,
desejo de abraçar o corpo e misturar vidas,
de falar e de ouvir,
de trocar risadas, lembranças, dores e suores.
eu via os olhos da moça e a moça via meus olhos.
cheguei a sentir o perfume,
a quase roçar o cabelo,
mas o que poderia ser uma nova história
ficou apenas no riso leve que trocamos,
quando cruzamos um pelo, para nunca mais.
gosto de sentir que também tenho sentires.escuto o berro das águas e meus dedos tateiam encontroscomo se tecessem teias.penso folhas secas estalando sob abraçoscomo se fossem frituras.fraturando os silêncios.sim, eu também tenho sentires.meu olhar encontra outros olhares,mas só vejo existências paralelas...
Novamente vou pisar as pedras das ruas de Olinda
Ouvindo o som do frevo,
Envolto no calor humano e no calor do sol.
Suor, cerveja e perfume aguçando os meus sentidos
Enquanto brilhos e cores
Perambulam por meus olhos.
Aqui, um arlequim tristonho chora a saudade solitária
Que o afastou da colombina bela.
Acolá, um pirata abraça a odalisca quase nua,
E avança sobre o mar de corpos, risos e música e suor.
Ao lado, um homem solitário olha tudo,
Extasiado pelo surrealismo dos blocos que se cruzam
Sem misturar os sons dos frevos, perfeitamente identificados.
A moça olha meus olhos tentando identificar o amor
Por trás da máscara que me cobre os anos.
Tomo sua mão, avançamos quatro ou cinco passos
Sentindo o calor dos dedos e a libido a envolver-nos.
Abraço-a firme e sinto, por um momento curto,
A saudade de antigos carnavais...
Depois a solto.
Ela ainda se volta rindo a me fitar surpresa,
Enquanto é engolida pela massa,Sem compreender que o meu tempo é outro...